Sessão “Recebi por email”

Caras noticiando festa de pobre

Numa noite regada a cerveja, cachaça, petiscos e pagode, a caixa do Epa, Kelly Carollynny (18), comemorou sua maioridade cercada de amigos e parentes.
A festança foi na laje da casa da família, em Ribeirão das Neves, onde mora com os pais, o cobrador de ônibus Ailton (49) e Isaura (43), que está desempregada, mas faz bicos como diarista. A festa, que começou ainda antes do sol se pôr, só acabou de madrugada, quando os convidados já perdiam a linha dançando o créu na velocidade cinco.
“Tô amarradona!”, dizia a exultante Kelly, agora de maior, que usava um vestido todo trabalhado no Jérsei, comprado nas Lojas Americanas.
O buffet foi todo organizado pela mãe da aniversariante e incluía coxinha de galinha, risole, joelho e amendoinzinhos.
– “Também ia ter churrasco, mas a picanha tá pela hora da morte!”, desabafou Isaura, enquanto enrolava uns croquetes.
De sobremesa, muito cajuzinho, além do bolo especialmente preparado por Dona Jurema (84), avó da aniversariante. Já as biritas ficaram por conta dos convidados, o que gerou certo desconforto. Principalmente quando Alison (44), irmão de Ailton, chegou trazendo Nova Schin.
– “Isso é sacanagem!”, berrou o anfitrião, “a gente é pobre mas tem dignidade”, obrigando o tio da aniversariante a sair e só voltar quando trouxesse, pelo menos, Antarctica. Durante a festa, Kelly aproveitou para assumir seu affair com Rodnei (19), avião do tráfico da Cabana do Pai Tomaz, que presta concurso para PM no fim do mês.
“A gente tamo amarradão”, dizia o futuro homem da lei. Rodnei é irmão de Wandergleidison, que se encontra detido na Penitenciaria de Neves,
quando foi preso pela Policia Militar com “a mão na massa”, portando vários papelotes de cocaína, muita pedra e maconha, que abasteceria os vários pontos que a família mantém na região da favela do Pau Comeu em Contagem.
Kelly Carollynny aproveitou a oportunidade para negar os boatos de que estaria esperando um herdeiro: “Eu não tô buchada. Isso é coisa que a mídia inventa para vender mais revista”, garantiu antes de afirmar que os dois ainda estão se conhecendo. O casal foi apresentado por Ailtinho (21), irmão da aniversariante, que não compareceu porque agora é pastor e Jesus (2008) o proibiu de freqüentar esse tipo de badalação.
A irmã de Kelly, Luzimara deixou a festa mais cedo, pois seu filho Uóshiton teve uma pequena disfunção alimentar e sujou toda a roupa que trajava, sendo necessário retirar-se da festa, após um banho no tanque.
Um dos pontos altos da noite foi quando Ailton, mamado, aproveitou que sua esposa tinha ido para o quarto assistir ao TV Fama e passou a mão na bunda de Suéllen Cristina (27), sua cunhada. A moça revidou com um tapa na cara, e se não fosse a turma do deixa disso a situação poderia se agravar. “Vai tomar no meio do olho do seu cu!”, berrou a cunhada, enquanto era retirada do local.
Os convidados dançaram a noite inteira ao som de pagode, comandado pelo grupo Interrogasamba, cujo líder Birunda (26) fora o responsável por tirar a virgindade da aniversariante meses antes. “Mas num coloca isso aí não, senão pode dar a maior merda”, pediu.
Kelly Carollynny agora só quer saber de descansar. Sábado de manhã ela e o namorado partem rumo à rodoviária, onde embarcarão num ônibus para Esmeraldas. “Domingo a gente volta, porque segunda é preto na folhinha e pego cedo no trampo”, garantiu a aniversariante, feliz da vida!!!

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Ser americano

Muitas pessoas me perguntam por qual razão eu decidi torcer pelo América. Todos esperam uma história mirabolante, talvez até cômica, do dia em que me tornei americano. Mas, infelizmente, o fator que determinou minha escolha foi, como em 99% dos casos, o fato de meu pai ser americano. Mais clichê do que isso, só quando me perguntam se eu torço pelo Atlético ou pelo Cruzeiro.
Agora me pergunte: por que você continua torcendo pelo América?
Aí sim, há peculiaridades que rendem uma boa história. Vou começar por motivos menores como o fato do Independência (estádio do América) ser mais perto e tranqüilo do que o Mineirão, não há confusão nos jogos (jamais peguei ingresso na mão de cambista para jogo do América) e, sem dúvidas, todos palavrões que eu conheço foram aprendidos na grande escola da massa alvi-verde.
Entretanto, o que mais me agrada em ser torcedor do América, é pelo simples fato de que, não há como ser surpreendido pelo time. Espero sempre uma derrota, portanto, quando perde, tudo bem. Já era esperado. Quando empata, jogando mal, saúdo a defesa; jogando bem, reforço que até o Real Madrid pode ter um dia de azar. Mas, quando ganha… Aí não tem jeito. Comemoro como se fosse Copa do Mundo. Ou seja, nem preciso esquentar minha cabeça com o time.
Quero deixar bem claro: eu torço sim. Fico mal quando o time perde, xingo, vaio, aplaudo, cobro, mas jamais perco a paciência.
E assim que é ser americano: um sujeito que torce e sofre, mas, mais do que tudo isso, se diverte.

Frases da semana

Me joga no sofá e me chama de ácaro!

O agente somos nós! [frase retirada do Jornal do Ônibus dessa quinzena]

As implicações das conversas de boteco na personalidade masculina

A conversa de boteco é algo sagrado para um homem. É nesta hora que ele revela suas múltiplas faces que estão sufocadas dentro do terno, enforcadas pela gravata, asfixiadas pela cueca, arranhadas pelo barbeador no seu cotidiano.

Tais faces variam de acordo com o que acompanha a conversa. Se for, por exemplo, uma carne-de-sol com mandioca frita, o homem torna-se um ser menos urbano, menos preocupado com o stress das cidades, perde sua característica dinâmica. Manda pro inferno as notícias sobre economia e nem se aborrece com o trânsito. Digamos que ele vai à sua raíz.

Se o acompanhamento for fritas com filé com queijo na chapa, o homem vira palhaço. Sente-se um garoto novamente, um moleque que jogava bola descalço na rua e que sempre desejou pular da janela pra imitar o Super-Homem. Piadas vem à tona em suas cabeças num piscar de olhos. Mesmos olhos que brilham ao perceber que poderá passar catchup nas batatas.

Fica filósofo quando a porção de linguiça calabresa chega à mesa. “Como se faz a linguiça?” é dúvida pertinente, e as mais variadas respostas são elaboradas enquanto são devoradas. O torresmo reflete a face saudável: “só um ou dois, por causa do colesterol”. O pratinho de azeitonas remete ao homem à mentira: “pô… to com a maior azia… deve ter sido essas azeitonas”.

As conversas de boteco dos homens não são desorganizadas, como a maioria das mulheres pensam. Elas (as conversas) obedecem a uma tríade bem definida de assuntos caprichosamente ordenados. Futebol, sexo e política. E isto prova que ela revela mais uma face: a organizada. Coisa que as representantes do sexo feminino insistem em dizer que não temos. Elas deveriam olhar para suas bolsas antes de falarem isso.

Começa leve:

– Você viu o gol do Ronaldo anteontem(¹)?

– Golaço. Mas tava impedido.

Aí começa a esquentar:

– Impedido? Você é cego? Tinha dois zagueiros na frente!

– Ora, meu caro… mas a linha da bola não estava entre eles e a linha de fundo…

E aí pega fogo de vez:

– Ahhh você tá reclamando porque seu time não ganha de ninguém!

– Pelo menos a gente num é boiola que nem vocês!

Aí entra na segunda fase da conversa:

– Pelo menos eu levei a Dorinha da repartição pro motel ontem…

– Ah fala sério! Sério?

– Sério!

– Putz… aquela pintinha dela no canto da boca igual da Débora Secco me deixa louco…

– E os peitos então? Nossa… ia fácil fácil…

– Ouvi dizer que ela é mais rodada que pneu de caminhão…

– Um brinde a ela!

– Um brinde!

E aí vem a última parte:

– Mas essa mulherada só quer saber de dinheiro… se eu tivesse um castelo que nem aquele deputado, teria um harém!

– Putz… fala não… safado aquele cara, hein… viu o salário dele?

– Bando de ladrão… ainda bem que não votei nele.

Obviamente, isso foi um resumo de uma conversa de boteco. Se reproduzisse em tempo real, levaria entre 15 a 25 GC(²) para escrever aqui – e com a possibilidade de não conseguir terminar o texto depois.

O que importa é que as conversas de boteco libertam os homens. Elas assumem o mesmo papel do ventinho que bate nos pés após tirar aquela meia usada o dia inteiro, aquele gole de cerveja gelada que desce na garganta em um dia quente de verão, aquele gol do seu time no último minuto de jogo – de canela após bater nas duas traves -, ou seja, é um alívio. E deveria ser mais respeitado e apoiado pelas mulheres.

E tenho dito.

Observações:

(1) Anteontem porque conversas de boteco são, originalmente, feitas às sextas e/ou sábados. Logo, o “anteontem” dará em quartas/quintas que são os dias internacionais do futebol na TV.

(2) GC é a sigla de Garrafas de Cerveja, unidade de medida de duração de conversas de boteco. Estima-se que 1GC = 5min, se houver 3 homens. Trata-se de uma unidade de medida muito complexa e variável, porém, é a mais utilizada nos estabelecimentos de copo sujo.

Amor Para Irritar

-Môzinho, vamos sair hoje?
-Ah não sei… acho que vou jogar PS2.
-MÔ! VAMOS SAIR HOJE!
-…
-Ah não vai não né? Tá bom..
-Onde você quer ir?
-Ah sei lá… vamos no cinema?
-Nossa, que legal! Estreiou Watchmen esses dias, vamos ver?
-Watchmen? *cara de nojo*
-É legal! Vamos?
-Eu quero ver Amor Pra Recordar 2.
-Ah docinho de coco, esse filme é chato. Vamos ver Spirit, então?
-Quêêêê?????? Nããããão!!!! Aparece a Scarlett Johansson de decote! EU vou ver Amor Pra Recordar, fica aí jogando seu PS2zinho.
-Tá, que horas passo aí pra te pegar?
-Ah sabe o que é? To na casa da minha tia, no bairro Pindorama, vem aqui.
-Tá, to indo. bjomechicoteiasinhazinha.
Ele pensa: *Puta que pariu! Pindorama e depois Amor Pra Recordar…*
Ao chegar lá…
-Nossa, você demorou!
-É porque tinha muito trânsito. Saí de casa faz 5 horas…
-É, agora EU NÃO TO A FIM mais de ir no cinema…
-…
-Vamos no shopping fazer compras?

CURI, Andrezza. Conversas de MSN e histórias. Belo Horizonte: Microsoft: 2009

A viagem do Rocha

O Rocha já tinha planejado uma viagem com sua amiga pra Buenos Aires antes de começar a namorar a Luna. Para evitar flamengarias e poder explicar eventuais fotos com a amiga ao lado, ele decidiu falar que ia com a amiga, também jornalista, a trabalho para Porto Velho e inventou uma chacina de índios na região.
– Mas por que VOCÊ tem que sair daqui de Belo Horizonte pra ir ATÉ Porto Velho?
– É que os repórteres da região estão de greve.
– Greve?
– Além do mais, parece que tinha um índio que nasceu em Minas e foi uma das vítimas…
– Sério?
– Opa! Baita furo jornalístico, hein? Não posso perder a oportunidade!
– Verdade! Estou tão orgulhosa!
Quando voltou de viagem, Luna esperava ansiosa para saber como foi a reportagem.
– Um sucesso! – resumiu Rocha.
– Me mostra as fotos?
– Claro, claro… aí estão…
– Deixa eu ver… ué… Porto Velho tem a Casa Rosada?
– É a casa do prefeito… dizem que ele é meio veado.
– E quem é esse do seu lado? Maradona???
– Hahaha! Também achei que fosse! É incrível o que achamos nesse brazilzão, né? É um sujeito lá que é sósia do Maradona! Igualzinho, né? Hahahaha!
– Até demais… e não sabia que fazia frio em Porto Velho…
– É que peguei uma gripe lá. Sabe como é, né? Floresta, mosquitos, malária… baita febrão!
– Tadinho! E cadê os índios???
– Não te falei que eles estavam sendo mortos? Sobrou nenhum pra contar a história, ou melhor… tirar uma foto! Hahahahahaha!
– Hahahahahaha! Ai ai… e quando vai aparecer a reportagem?
– Foi suspensa por causa da greve.