Pindoca

Pindoca

Você chega em casa após um dia estressante no trabalho. Abre a porta e tropeça nas correspondências. A maioria, claro, contas. Mas uma era sem remetente. Apenas estava inscrito “Para o Sr. Pindoca”. Pindoca? Você tenta resgatar na sua memória se já foi chamado de Pindoca. Não, nunca. Nem nunca conheceu algum Pindoca na sua vida. O máximo foi o palhaço Pipoca que, na festa de aniversário do seu filho, urinou num copinho e saiu oferecendo para o povo dizendo que era guaraná.

Você bate na porta do vizinho. Abre um sujeito de mais ou menos 2,03m de altura e o dobro de largura com cara de quem nunca gostou de ser chamado de Pindoca. Definitivamente, não era ele o Pindoca. Você vai até a portaria e pergunta pro porteiro quem que deixou a carta. Ele diz que não sabe, que chegou agora e que nem adianta perguntar para o outro porque, simplesmente, não há porteiro de dia.

Você sai batendo em todos apartamentos chamando pelo Pindoca. Mas que burro você é! Quem que com um apelido desses iria se identificar?

Você decide abrir a correspondência. Que o Pindoca o desculpasse. Está escrito:
”Caro Pindoca,

Adorei sua última carta e, pela sua descrição, me apaixonei perdidamente por você. E como você me pediu vou me descrever: sou loira, olhos azuis, pele clara, corpo parecido com o da Ana Paula Arósio. E tenho uma tatuagem num lugar que eu sei que você vai adorar.

Espero-te ansiosamente. Com amor,

Tutuia”

Você não tem a menor dúvida: quer ser o Pindoca!

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Sou bi

Sou bi, amor

Nada deixava Lílian mais nervosa quando Fernando dizia:

– Amor, hoje vou jogar futebol com os amigos do escritório.

Aliás, havia algo sim, que a deixava mais furiosa: os campeonatos. Quando era semana de campeonato, era um inferno. Ele só falava sobre o campeonato ou então sobre o time ou até mesmo do troféu que iriam ganhar. Sempre era “um troféu mais brilhante do que o outro”, dizia Fernando. Lílian não agüentava. Dizem os vizinhos, que em época de campeonato, Lílian aumentava as suas idas à farmácia. Os maldosos diziam que era por causa do Túlio, o garanhão do bairro. Mas fontes seguras me confirmaram que era para comprar alguns calmantes.

Vale frisar que Lílian e Fernando eram um casal feliz, em termos conjugais atuais. Tinham duas filhas lindas. Uma já na pré-adolescência e a outra ainda nem sabia o que era uma Barbie direito. Mas enfim, o que vale a pena dizer é que os dois já estavam casados há quase 14 anos. 14 anos de puro companheirismo, fidelidade e paz. Exceto em época de campeonato, claro.

Mas acontece que já havia um tempão que Fernando não tinha campeonatos. Ok, os campeonatos não eram muito freqüentes, mas, pelo menos, havia um a cada 2 meses. E já havia 4 meses sem!!!!! Lílian estava desconfiada, mas contente ao mesmo tempo.

Fernando continuava tendo jogos, mas já não voltava todo suado. E estava indo de carro agora. “Estranho”, pensava Lílian, “Ele sempre vai a pé. Diz que a pé é melhor pra já chegar lá aquecido e tal. Fora que a quadra é a 3 quarteirões daqui. Não faz sentido gastar gasolina pra andar tão pouco.” Sempre que perguntado do por quê de resolver ir de carro agora, Fernando desconversava, dizia que aproveitava pra lavar o carro com o flanelinha que ficava lá tomando conta. De fato, o carro sempre estava bem lavado.

Certo dia, ou melhor, certa noite, após Fernando ter saído para jogar, Lílian, ao arrumar a cama para dormir, vê o uniforme do time de Fernando embaixo da cama. Essa foi a gota d’água para ela! Sim, ele estava traindo-a! Claro! Ela já não era mais uma mocinha. E ele tinha todo aquele jeito de jovem. Era quarentão, assim como ela, mas estava sempre em forma. E ela acabada! Por isso ta saindo com o carro e ele ta sempre lavado! Que flanelinha o quê! Ele levava uma qualquerzinha de 20 aninhos para um motel barato, onde após ficar 2h, lavavam o carro!

-Cretino! Ele me paga! – gritava Lílian com os olhos vermelhos – Quando ele chegar ele vai ver! Ah se vai!

E ele chega. Todo sorridente. Mas estranha ao ver a mulher segurando a vassoura na mão. Ele até iria fazer a brincadeira de perguntar se ela iria varrer ou voar, mas desistiu quando viu que quem iria voar era ele se fizesse esta pergunta.

-Amor, tenho uma coisa muito importante pra te falar – diz ele evitando olhar nos olhos ferventes dela – sou bi.

Lílian já estava preparada para xingar até a 5ª geração da família dele até sua ficha cair.

-Você é o quê?! – espanta-se a mulher.

-Bi! Não é maravilhoso? – diz ele todo alegre.

Não! Lílian até poderia entender ser trocada por uma mocinha de 20 anos. Aliás, entender vírgula, porque ela não perdoaria tal ato de infidelidade. Mesmo sabendo que ela bem que dava umas olhadas para o Túlio. Mas isso não importa! Ser trocada por uma mulher vá lá! É até digno de ser contado para as amigas, com o grau certo de dramaticidade. Mas ser trocada por um homem? Não isso já é demais. Mas calma, ser bi, não significa que ele tenha saído só com homens. Pode ter sido com as mocinhas de 20 também! Mas pensando bem, não. Se ele é bi, ele era casado com ela e deveria ter um namorado. Mesmo assim! Lílian ficou em estado de choque.

-Nossa. Foi demais hoje – continuava ele empolgado.

-Pára! Pára! Não quero ouvir detalhes – esbravejou Lílian – Como você pode fazer isso Fernando? 14 anos! 14 anos, Fernando!

Agora era Fernando que não entendia. Lílian continuava:

-Você deveria ter vergonha Fernando! O que suas filhas dirão? O que eu direi para as minhas amigas?

– Ué, podem dizer que o Fernandão aqui é o melhor técnico de society. Afinal, não é para muitos ganhar 2 títulos como jogador e como treinador do time.

Lílian já ia voltar a xingar a 5ª geração dele, mas fez uma pausa.

– Título? Espera aí! Do que você está falando?

– Ué, do bicampeonato da turma!

Bicampeonato, que bicampeonato?

– De futebol, amor. Do que mais poderia ser?

– Mas você não falou que tinha campeonato essa semana…

– Pois é. Sei que você odeia quando tem campeonato. Então nem toquei no assunto.

Lílian ficou pasma. Mas lembrou-se do uniforme debaixo da cama:

– E o uniforme, hein? Por que você não o levou?

– Ué, sou técnico agora. Preciso de uniforme não.

– Como assim técnico? Você sempre gostou de jogar.

– Gosto, mas eu já não sou mais menino né? Aliás, vou deitar.

E foi pra cama dormir. Lílian até agora não se recuperava do baque. Foi deitar também.

– Você tem sorte de não ter me batido – sussurrou Fernando.

– Por que?

– Poderia te denunciar por preconceito sexual – respondeu Fernando, que se virou e dormiu.

Lilian arregalou os olhos e pensou: “Amanhã eu tenho que ir à farmácia!”. Resta agora saber se era para comprar mais calmantes ou era pra ver o Túlio.

Não, não e não!

“Mais de 400 alunos já levaram multa por falar palavrão na escola. A punição incomum de cobrar R$ 0,10 a cada palavra feia emitida foi implantada pelo Colégio Evangélico Jaraguá, que fica em Jaraguá do Sul (SC) (a 220 Km de Florianópolis). A prática surgiu a partir da irritação de um professor de alemão com o linguajar dos alunos, e atingiu desde a 5ª série do ensino fundamental até o último ano do ensino médio.

O palavrão só é registrado quando está em contexto de ofensa ou constrangimento. Um inocente “bunda”, por exemplo, não conta. Entre os alunos, há até aqueles que acabam dedurando o colega boca-suja. Mas o que vale mesmo é a multa aplicada pelo professor e pela bibliotecária. A cada palavrão vai o aviso no caderninho.
Com o dinheiro arrecadado, foram comprados livros e materiais ilustrativos para aulas. “A escola é luterana e tem princípios cristãos. Devem existir punições, como a repreensão e a advertência. Como a multa tem esse tempero, os alunos ficam envolvidos, uns cobrando os outros. Ela está tendo sucesso. As espontaneidades que saltavam diminuíram muito”, afirma o diretor do colégio Leopoldo Fenner.
A medida já tem cerca de dois anos desde o início de sua aplicação. E, em todo o período de vigência, mais de R$ 40 foram arrecadados, segundo Fenner. No entanto, a implantação foi controversa.
“Nem todos os professores quiseram aderir ao processo de cobrança de multa. Nas reuniões pedagógicas, ficou acertado que outras punições podem servir para a cobrança da linguagem adequada. O professor de alemão e a bibliotecária é que levaram adiante a idéia”, conta.“.

Retirado do site Globo.com 07/08/2007

Espirrou? Vai ter que pagar!

– Atchim! – um espirro espalha-se no silêncio sepulcral da classe.

– Quem foi que espirrou?! – vociferou o professor – Hein, hein? Foi você Rodrigo? Não? Hum… então foi você, né Lucas?

– Mas, fessor… eu to gripado… – justificou-se o garoto

– Quero nem saber! 10 centavos! Agora! – bradou o professor

Lucas caminhou solenemente, cabisbaixo, com uma moedinha em uma das mãos até o cofrinho da turma. Despejou o dinheiro e voltou para o seu lugar acompanhado dos olhares de todos da sala. Natália levou as mãos à boca e logo foi repreendida:

– Acha engraçado, senhora Natália? – indagou o demoníaco professor

– Não, fessor! Tava só coçando a bochecha – respondeu em tom aflito a pequena menina

– Estava bocejando então que eu sei! 5 centavos!

A pobre levantou e fez a mesma coisa que o Lucas. Após depositar a moedinha, assentou-se.

A aula transcorreu sem interrompimentos, até o momento em que o André soltou um sonoro, claríssimo:

– M***!

A sala inteira se virou para o André. Ele lá, imóvel, mãos na cabeça, olhos esbugalhados, pálido. Parecia ter visto um fantasma. Mas ele esperava ver algo bem pior. Ia ver o diabo! Paralisou-se com o medo de se deparar com aquele olhar cortante, perfurador, feito ferrão de marimbondo do severo professor. Este permaneceu impávido, calmo, respiração leve e constante. O olhar não era aquele de bunda de vespa. Era olhar calmo, sereno, raro de ser encontrado naqueles olhos. Beirava a perplexidade.

Ficou aquele silêncio do silêncio. Aquele ensurdecedor. Talvez mais forte do que aquele barulho da falta de barulho, era a tensão, a apreensão da turma, especialmente a do André.

De repente, explodiu o sinal dando fim a aula e muito susto para todos. O professor ainda encarava o André de forma leve, mas não desgrudava o olho. Parecia estar em transe. Mais assustado que o garoto. Perplexo. Caiu em si, juntou seus livros e saiu da sala. Ninguém entendeu! Como assim ele não repreendeu o André? Ele gritou “m***”! Do nada…

Um grupinho de alunos, liderado pelo Lucas e pela Natália, foi reclamar (dedurar) do palavrão soltado pelo André no meio da aula. O diretor escutou as reclamações e decidiu chamar o garoto e o professor para terem uma conversinha na sua sala a respeito. Os dois obedeceram. O manda-chuva do colégio indagou ao estudante o por quê de ter berrado aquela expressão chula na aula do severíssimo educador:

– O Brasil perdeu a medalha de ouro no Pan, diretor!

– P*** m****! Sério? – assustou-se o diretor. O garoto e o professor assustaram-se mais

Os três se entreolharam por algum tempo. O professor deu sua palavra passado este momento mudo:

– Minha reação foi quase igual a sua, senhor diretor. Fiquei perplexo com isso. Como é que perde aquele ouro? Aquelas p**** cubanas! Não é possível! Elas não prestam pra nada! Nem pra rodar bolsinha em avenida central!

– É f***, viu – desabafou o diretor

E os três ficaram discutindo sobre a derrota brasileira no Pan. Enquanto que o Lucas estava depositando mais 10 centavos no cofrinho por ter espirrado novamente.