Sou bi

Sou bi, amor

Nada deixava Lílian mais nervosa quando Fernando dizia:

– Amor, hoje vou jogar futebol com os amigos do escritório.

Aliás, havia algo sim, que a deixava mais furiosa: os campeonatos. Quando era semana de campeonato, era um inferno. Ele só falava sobre o campeonato ou então sobre o time ou até mesmo do troféu que iriam ganhar. Sempre era “um troféu mais brilhante do que o outro”, dizia Fernando. Lílian não agüentava. Dizem os vizinhos, que em época de campeonato, Lílian aumentava as suas idas à farmácia. Os maldosos diziam que era por causa do Túlio, o garanhão do bairro. Mas fontes seguras me confirmaram que era para comprar alguns calmantes.

Vale frisar que Lílian e Fernando eram um casal feliz, em termos conjugais atuais. Tinham duas filhas lindas. Uma já na pré-adolescência e a outra ainda nem sabia o que era uma Barbie direito. Mas enfim, o que vale a pena dizer é que os dois já estavam casados há quase 14 anos. 14 anos de puro companheirismo, fidelidade e paz. Exceto em época de campeonato, claro.

Mas acontece que já havia um tempão que Fernando não tinha campeonatos. Ok, os campeonatos não eram muito freqüentes, mas, pelo menos, havia um a cada 2 meses. E já havia 4 meses sem!!!!! Lílian estava desconfiada, mas contente ao mesmo tempo.

Fernando continuava tendo jogos, mas já não voltava todo suado. E estava indo de carro agora. “Estranho”, pensava Lílian, “Ele sempre vai a pé. Diz que a pé é melhor pra já chegar lá aquecido e tal. Fora que a quadra é a 3 quarteirões daqui. Não faz sentido gastar gasolina pra andar tão pouco.” Sempre que perguntado do por quê de resolver ir de carro agora, Fernando desconversava, dizia que aproveitava pra lavar o carro com o flanelinha que ficava lá tomando conta. De fato, o carro sempre estava bem lavado.

Certo dia, ou melhor, certa noite, após Fernando ter saído para jogar, Lílian, ao arrumar a cama para dormir, vê o uniforme do time de Fernando embaixo da cama. Essa foi a gota d’água para ela! Sim, ele estava traindo-a! Claro! Ela já não era mais uma mocinha. E ele tinha todo aquele jeito de jovem. Era quarentão, assim como ela, mas estava sempre em forma. E ela acabada! Por isso ta saindo com o carro e ele ta sempre lavado! Que flanelinha o quê! Ele levava uma qualquerzinha de 20 aninhos para um motel barato, onde após ficar 2h, lavavam o carro!

-Cretino! Ele me paga! – gritava Lílian com os olhos vermelhos – Quando ele chegar ele vai ver! Ah se vai!

E ele chega. Todo sorridente. Mas estranha ao ver a mulher segurando a vassoura na mão. Ele até iria fazer a brincadeira de perguntar se ela iria varrer ou voar, mas desistiu quando viu que quem iria voar era ele se fizesse esta pergunta.

-Amor, tenho uma coisa muito importante pra te falar – diz ele evitando olhar nos olhos ferventes dela – sou bi.

Lílian já estava preparada para xingar até a 5ª geração da família dele até sua ficha cair.

-Você é o quê?! – espanta-se a mulher.

-Bi! Não é maravilhoso? – diz ele todo alegre.

Não! Lílian até poderia entender ser trocada por uma mocinha de 20 anos. Aliás, entender vírgula, porque ela não perdoaria tal ato de infidelidade. Mesmo sabendo que ela bem que dava umas olhadas para o Túlio. Mas isso não importa! Ser trocada por uma mulher vá lá! É até digno de ser contado para as amigas, com o grau certo de dramaticidade. Mas ser trocada por um homem? Não isso já é demais. Mas calma, ser bi, não significa que ele tenha saído só com homens. Pode ter sido com as mocinhas de 20 também! Mas pensando bem, não. Se ele é bi, ele era casado com ela e deveria ter um namorado. Mesmo assim! Lílian ficou em estado de choque.

-Nossa. Foi demais hoje – continuava ele empolgado.

-Pára! Pára! Não quero ouvir detalhes – esbravejou Lílian – Como você pode fazer isso Fernando? 14 anos! 14 anos, Fernando!

Agora era Fernando que não entendia. Lílian continuava:

-Você deveria ter vergonha Fernando! O que suas filhas dirão? O que eu direi para as minhas amigas?

– Ué, podem dizer que o Fernandão aqui é o melhor técnico de society. Afinal, não é para muitos ganhar 2 títulos como jogador e como treinador do time.

Lílian já ia voltar a xingar a 5ª geração dele, mas fez uma pausa.

– Título? Espera aí! Do que você está falando?

– Ué, do bicampeonato da turma!

Bicampeonato, que bicampeonato?

– De futebol, amor. Do que mais poderia ser?

– Mas você não falou que tinha campeonato essa semana…

– Pois é. Sei que você odeia quando tem campeonato. Então nem toquei no assunto.

Lílian ficou pasma. Mas lembrou-se do uniforme debaixo da cama:

– E o uniforme, hein? Por que você não o levou?

– Ué, sou técnico agora. Preciso de uniforme não.

– Como assim técnico? Você sempre gostou de jogar.

– Gosto, mas eu já não sou mais menino né? Aliás, vou deitar.

E foi pra cama dormir. Lílian até agora não se recuperava do baque. Foi deitar também.

– Você tem sorte de não ter me batido – sussurrou Fernando.

– Por que?

– Poderia te denunciar por preconceito sexual – respondeu Fernando, que se virou e dormiu.

Lilian arregalou os olhos e pensou: “Amanhã eu tenho que ir à farmácia!”. Resta agora saber se era para comprar mais calmantes ou era pra ver o Túlio.

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