Ela é a única que eu devo vigiar. Minha primeira e última. Se eu obtiver sucesso: recompensa. Se eu fracassar: nem Deus sabe. Literalmente.

Confesso que me sinto um tanto quanto incomodado com sua presença. Não sei ao certo por quê. Creio que seja a ansiedade. Aquele frio na barriga que congela as tripas e faz a saliva virar cubo de gelo toda vez que é engolida.

E olha que nem tenho tripas e tampouco salivo.

Acompanho-a desde seu nascimento, há 24 anos. Vi seus primeiros passos, suas primeiras falas, suas primeiras letras, primeiras crises, primeiros amores, primeiros ódios, primeiras decepções, primeiras mágoas, primeiros prazeres. E primeiro encontro com os coletores.

Coletores: as Mortes.

Era a comemoração do seu 7º aniversário. Um domingo de sol, céu azul com algumas poucas fofas nuvens. As crianças brincavam de pega-pega na rua e os adultos conversavam em voz alta nas mesas armadas no jardim da frente. Eu estava lá, agarrado no pé de sua pequena sombra. A rua, na época, era bem pacata, quase não passava carros. Pois é. Quase. Um passou bem na hora que a aniversariante, distraidamente, corria para a outra margem fugindo do seu pega. E por muito pouco não foi realmente pega. E eu ficaria sem minha recompensa. Não havia recebido nenhuma mensagem dizendo que poderia deixá-la ser coletada, logo, não era sua hora. Só deu tempo de o motorista buzinar, de a menina ficar parada, boquiaberta, vendo o carro se aproximar rapidamente de seu corpinho e de eu entrar na sua frente, parando o automóvel.

– Não olha por onde anda não, menina? Se eu não tivesse freado a tempo! – esbravejou o motorista.

– Não sabe dirigir não, feioso? – retrucou a garotinha.

Ele agradeceu a Deus por ter conseguido frear. Mal sabe ele que ele não freou! E mal sabe ele que não foi graças a Deus.

*

Breve perfil psicológico da minha protegida aos 7 anos

Ela era invocada.

*

É. Daquele dia em diante eu tirei uma conclusão: vou ter trabalho!

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