As implicações das conversas de boteco na personalidade masculina

A conversa de boteco é algo sagrado para um homem. É nesta hora que ele revela suas múltiplas faces que estão sufocadas dentro do terno, enforcadas pela gravata, asfixiadas pela cueca, arranhadas pelo barbeador no seu cotidiano.

Tais faces variam de acordo com o que acompanha a conversa. Se for, por exemplo, uma carne-de-sol com mandioca frita, o homem torna-se um ser menos urbano, menos preocupado com o stress das cidades, perde sua característica dinâmica. Manda pro inferno as notícias sobre economia e nem se aborrece com o trânsito. Digamos que ele vai à sua raíz.

Se o acompanhamento for fritas com filé com queijo na chapa, o homem vira palhaço. Sente-se um garoto novamente, um moleque que jogava bola descalço na rua e que sempre desejou pular da janela pra imitar o Super-Homem. Piadas vem à tona em suas cabeças num piscar de olhos. Mesmos olhos que brilham ao perceber que poderá passar catchup nas batatas.

Fica filósofo quando a porção de linguiça calabresa chega à mesa. “Como se faz a linguiça?” é dúvida pertinente, e as mais variadas respostas são elaboradas enquanto são devoradas. O torresmo reflete a face saudável: “só um ou dois, por causa do colesterol”. O pratinho de azeitonas remete ao homem à mentira: “pô… to com a maior azia… deve ter sido essas azeitonas”.

As conversas de boteco dos homens não são desorganizadas, como a maioria das mulheres pensam. Elas (as conversas) obedecem a uma tríade bem definida de assuntos caprichosamente ordenados. Futebol, sexo e política. E isto prova que ela revela mais uma face: a organizada. Coisa que as representantes do sexo feminino insistem em dizer que não temos. Elas deveriam olhar para suas bolsas antes de falarem isso.

Começa leve:

– Você viu o gol do Ronaldo anteontem(¹)?

– Golaço. Mas tava impedido.

Aí começa a esquentar:

– Impedido? Você é cego? Tinha dois zagueiros na frente!

– Ora, meu caro… mas a linha da bola não estava entre eles e a linha de fundo…

E aí pega fogo de vez:

– Ahhh você tá reclamando porque seu time não ganha de ninguém!

– Pelo menos a gente num é boiola que nem vocês!

Aí entra na segunda fase da conversa:

– Pelo menos eu levei a Dorinha da repartição pro motel ontem…

– Ah fala sério! Sério?

– Sério!

– Putz… aquela pintinha dela no canto da boca igual da Débora Secco me deixa louco…

– E os peitos então? Nossa… ia fácil fácil…

– Ouvi dizer que ela é mais rodada que pneu de caminhão…

– Um brinde a ela!

– Um brinde!

E aí vem a última parte:

– Mas essa mulherada só quer saber de dinheiro… se eu tivesse um castelo que nem aquele deputado, teria um harém!

– Putz… fala não… safado aquele cara, hein… viu o salário dele?

– Bando de ladrão… ainda bem que não votei nele.

Obviamente, isso foi um resumo de uma conversa de boteco. Se reproduzisse em tempo real, levaria entre 15 a 25 GC(²) para escrever aqui – e com a possibilidade de não conseguir terminar o texto depois.

O que importa é que as conversas de boteco libertam os homens. Elas assumem o mesmo papel do ventinho que bate nos pés após tirar aquela meia usada o dia inteiro, aquele gole de cerveja gelada que desce na garganta em um dia quente de verão, aquele gol do seu time no último minuto de jogo – de canela após bater nas duas traves -, ou seja, é um alívio. E deveria ser mais respeitado e apoiado pelas mulheres.

E tenho dito.

Observações:

(1) Anteontem porque conversas de boteco são, originalmente, feitas às sextas e/ou sábados. Logo, o “anteontem” dará em quartas/quintas que são os dias internacionais do futebol na TV.

(2) GC é a sigla de Garrafas de Cerveja, unidade de medida de duração de conversas de boteco. Estima-se que 1GC = 5min, se houver 3 homens. Trata-se de uma unidade de medida muito complexa e variável, porém, é a mais utilizada nos estabelecimentos de copo sujo.

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